2.04.2012

o homem esquecido

História de Zend, o homem que corria para não se esquecer de uma lenda. É possível que uma lenda esquecida possa dar origem a outra lenda.
 
Das "Mil histórias sem fim..." é esta a trigésima quarta. Tudo é de esperar e de temer do tempo e dos homens. Lida esta, restam apenas novecentas e sessenta e seis.
 
Encontrava-me certa vez, ao entardecer, sentado à porta de minha tenda, saboreando tranqüilo o meu narguilé. Nuvens cinzentas, em caravanas disformes, enovelavam-se pelo céu.
Ouvia-se, de quando em vez, o pipilar de um pássaro ou o blaterar rouco de um camelo. A estrada diante de meus olhos, batida pelo sol da tarde, alongava-se deserta e triste. Ao longe, as tamareiras sacudidas pelo vento pareciam acenar para mim com seus albornozes verdes.
Vi, de repente, aproximar-se um viajante. Vinha dos lados de El-Ausat e caminhava muito apressado, quase a correr. Ergui-me lentamente e aproximei-me da margem da estrada.
- Olá, meu amigo! - gritei, amistosamente, ao homem que passava. - Aonde vais assim apressado? Vai salvar o teu filho mais moço das garras de algum dragão?
E segurei-o pelo ombro detendo-o, por um momento, junto a mim. Só então pude reconhecê-lo. Era Zend Rochaid, massagista de fama, meu velho companheiro de peregrinação a Meca.
- Larga-me! protestou Zend Rochaid esbaforido, tentando escapar-se de minhas mãos. - Deixa-me seguir.
- Escuta, meu caro massagista - repliquei prendendo-o com firmeza - quero convidar-te agora para uma ligeira refeição. Algumas tâmaras, uma boa fatia de carneiro assado, um ensopado de filhote de camelo e um suculento pedaço de torta de nozes com mel não farão mal a ninguém. Estou só e agrada-me a tua companhia.
- Agradeço-te - retorquiu o bom massagista - mas não posso anuir ao teu amável oferecimento. Adoro carneiro assado; o bolo de nozes é o meu favorito. Mas não tenho tempo a perder. Vou já para o palácio do Xeque Malik Balbud, onde sou ansiosamente esperado por dezenas de pessoas da mais alta nobreza.
- Um minuto que seja - insisti. – Chegarás um pouco tarde e essa ligeira demora em nada prejudicará o honrado Xeque Malik Balbud e os seus dignos convidados.
Tornou o massagista com voz ainda meio ofegante, fixando-me no rosto seus olhos embaciados.
- Não é bem esse o motivo. A razão é outra. O Xeque Malik Balbud oferece hoje, uma brilhante reunião em seu rico palácio. Ontem, depois da massagem habitual que lhe aplico, ele chamou-me e disse: "Bem sei, meu caro Zend, que és vivo e inteligente. Precisarei amanhã de um valioso serviço teu". O Xeque é muito bom e já me tem socorrido muitas vezes. Disse-lhe, pois, que estava a seu inteiro dispor e que faria o que ele quisesse e determinasse.
Respondeu-me: "Pretendo realizar amanhã (se Allah quiser!) uma grande festa em meu palácio. A essa festa virão muitas pessoas, inclusive o príncipe Abul-Zeid que o povo apelidou "O Magnífico". O meu contador de histórias foi visitar a família e só voltará no fim da semana. Preciso de alguém que o substitua. Quero que inventes uma história bem bonita, inteiramente nova, para ser narrada aos meus hóspedes. Conto contigo". Respondi: - "Escuto e obedeço".
Retornei a casa preocupado com aquela delicada incumbência: imaginar e conceber uma história, bem bonita e digna de ser ouvida pelos nobres muçulmanos. A minha responsabilidade era muito séria.
Era preciso atender ao Xeque. Quando obedecemos aos nossos superiores ensinamos obediência aos nossos inferiores. Pus-me a meditar. Concentrei-me. Procurei recordar-me de todas as lendas que ouvira. Lendas da Pérsia; contos da China; parábolas dos cristãos. Tomei de cada uma das histórias uma parte, um pedaço, e fiz com esses retalhos de lendas uma nova lenda! Ao cabo de algumas horas, estava resolvido o problema. A lenda que eu forjara era inteiramente nova, de enredo atraente e cheia de belos ensinamentos. Resolvi correr imediatamente para a residência do Xeque Malik. Quero chegar lá o mais depressa possível.
- Mas por que essa pressa? – recriminei. - A lenda poderá ser narrada agora, ou logo mais, depois da prece. Não importa. A hora retardada não sacrificará a beleza da narrativa. Ao contrário. Uma boa refeição fará com que fiques mais alegre e bem disposto. Vamos saborear em paz o carneiro assado, que deve estar saboroso.
Zend, com mal disfarçada inquietação, voltou a desculpar-se:
- Sinto dizer-te, meu caro, que a minha memória é muito fraca. Comigo sucede lembrar-me, em dado momento, de um fato, para esquecê-lo dois ou três segundos depois. Não posso corrigir-me desse defeito. Um dia, depois de uma jornada, esqueci-me do lugar onde havia escondido as chaves de minha casa. Aquele esquecimento deixou-me confuso. Fiz um esforço sobre-humano e, de repente, me voltou à lembrança o lugar onde se achavam as preciosas chaves. Fiquei satisfeitíssimo. Exultei de alegria. Resolvi, como testemunho de minha gratidão, erguer uma prece a Allah, o Altíssimo. Ajoelhei-me e comecei a orar. Finda a prece, ergui-me. Oh! Que desgraça! Havia me esquecido, outra vez, do lugar onde deixara as famigeradas chaves! Esse fato vem provar que não posso confiar na minha memória, incerta e traiçoeira. Antes, portanto, que eu me esqueça por completo da história que imaginei, quero narrá-la ao Xeque Malik e a seus convidados. Se demorar pelo caminho; se me distrair com ceia ou visita, corro o perigo de ver fugir o enredo da lenda e desaparecer tudo, tudo, nas sombras do esquecimento!
Não haverá perigo algum - insisti com firmeza - Basta que te acauteles contra o risco do esquecimento. E para isso conheço um recurso antigo: gravarás ali, no tronco daquela árvore, alguns sinais, letras ou palavras que te façam recordar em qualquer momento a lenda que tanto te interessa. Gravados os sinais indispensáveis poderás sem receio aceitar o meu convite. Que achas da minha idéia?
- Magnífica! - condescendeu o massagista, depois de breve cisma. - Vou aproveitar a tua original sugestão. Aquele que aprende as regras da prudência e da sabedoria, mas não as aplica, é comparável ao que lavrasse o campo sem o semear.
O meu amigo tirou o punhal e pôs-se a desenhar com toda cautela, no tronco da árvore, várias figuras estranhas. Traçou dois círculos, uma pequena seta, e acrescentou vários outros sinais e letras. Ocupou-se nessa delicada tarefa com paciência e capricho. Terminado o trabalho afastou-se da árvore, olhou atentamente para o desenho, e murmurou:
- Perfeito! Parece incrível que uma lenda tão grande possa resumir-se em tão poucos sinais! - declarei com desbordante orgulho. - Estás agora livre do fantasma do esquecimento! A qualquer momento a lenda por ti inventada voltará a brilhar em teu pensamento. Vamos aos nossos deliciosos petiscos! Uma pequena parte da vida é formada de bons momentos; convém, pois, aproveitá-los!
Chamei o meu habilidoso cozinheiro e disse:
- Prepara, ó Hayyan! um quibe delicioso! Tenho hoje a meu lado, honrando-me nesta tarde, um convidado especial, o maior massagista da Pérsia.
Zend Rochaid foi pródigo em elogios aos pratos que Hayyan temperava. Achou tudo ótimo, desde a fritada de palmito e cebola até o saboroso filhote de camelo fervido em soro de leite!
Findo o repasto, agradeceu-me o delicioso convite, a ceia, os doces; limpou os beiços com a manga da blusa e preparou-se para partir.
A lenda que ele imaginara e que deveria ser narrada ao cair da noite no palácio de Malik, estava para sempre fixada no tronco da árvore.
- Vou recordá-la, do principio ao fim, antes de partir - declarou Zend - pois, como já disse, não confio na memória!
O massagista aproximou-se da árvore e pôs-se a observar a legenda. Lá estavam os círculos, as letras, os riscos retorcidos para cima e para baixo. Decorridos alguns instantes começou a andar agitado com largas passadas, de um lado para outro, apertando a cabeça entre as mãos como se quisesse cravar as unhas na fronte. Parecia presa de insanável decepção. Esgazeou-se-lhe o olhar.
- Que aconteceu? - perguntei-lhe já preocupado com as maneiras espantadiças de meu hóspede.
- Uma desgraça, meu amigo! Esqueci-me inteiramente da tal lenda; não me recordo mais de seu enredo, de sua forma, nem de seus personagens. E, por não me lembrar da lenda, não consigo compreender a significação desses sinais que eu mesmo tracei para recordá-la!
A situação era grave.
- Vamos! - bradei com energia, procurando reanimá-lo! - Tem calma. Procura relembrar um dos episódios da lenda!
- É inútil tentar - lamentava Zend, já sucumbido, desatinado, vergando ao peso da desdita. - Todo o esforço será inútil. O meu esquecimento é completo, absoluto! Nada mais resta da lenda que eu havia cuidadosamente inventado. E agora, que farei?
Vi seus olhos esgazearem-se de horror. A máscara da palidez cobriu-lhe o rosto.
Fiquei constrangido com a torturante situação de desespero do meu amigo. Sentia-me um tanto culpado daquele desastre. Fora eu quem interrompera a sua marcha e insistira para que ele aceitasse a ceia. De mim partira, igualmente, aquela deplorável lembrança de gravar a lenda, em resumo, no tronco da árvore! Tudo fizera com a melhor das intenções, é verdade, mas as conseqüências do meu alvitre haviam sido deploráveis.
Ali estava, pois, o meu amigo em situação difícil por minha culpa, minha máxima culpa!
Pesava-me sobre os ombros um dever sagrado. Achar uma solução para o caso. Não havia tempo a perder. O tempo chega sempre - dizem - mas, às vezes, não chega a tempo.
Abracei o conturbado amigo e decidi tranqüilizá-lo.
- Não te desesperes por tão pouco - aquietei-o. - Allah é grande! Para todas as dificuldades há sempre um remédio.
- Qual - lamentou, em tom desolado, inculpando-se. - Para o meu caso não há solução. Não poderei atender ao pedido do Xeque Malik Balbud e ficarei em falta, para com aquele que é o meu maior protetor!
- Nada mais simples -  retorqui. - Irás, agora mesmo, ao palácio do chelique Malik. Quando lá chegares, o Xeque, ao ver-te, perguntará, decerto: "Qual é a história maravilhosa, ó Zend, que inventaste para divertir os meus ilustres convidados?" Contarás, então, ao generoso Malik, a tua aventura desta tarde.
- Que aventura? - indagou num tom receoso.
- Ora, - repliquei - isso tudo que acabou agora mesmo de ocorrer contigo. Falarás da lenda imaginada; de tua corrida pela estrada; do nosso encontro; do receio que tinhas de esquecer a lenda; da lembrança de gravá-la no tronco da árvore; descreverás a nova lenda que fizeste; a seguir, a ceia que saboreaste, e por fim, o inacreditável desastre: o esquecimento fatal, irremediável! Garanto-te que a narrativa desses sucessos agradará, não só ao Xeque Malik como a todos os príncipes e ulemás da Pérsia.
Zend Rochaid fitou-me cheio de espanto. Parecia vencido à minha argumentação. A idéia brilhava-lhe no espírito; os seus olhos luziam de prazer. Despediu-se de mim apertando ao coração a minha mão esquerda e saiu a correr, como um louco, pela estrada em direitura à cidade.
Receava, decerto, esquecer a nova solução por mim idealizada.
Fiquei satisfeito ao vê-lo partir. A história que ele inventara (e que por minha causa esquecera) não seria mais interessante do que a outra que eu sugerira. Uma era fantástica, vivida no mundo da fantasia; a outra, real, autêntica, e por esse motivo, de valor indiscutível.
Mas uma dúvida ficara a preocupar-me. Seria o  meu amigo coroado de êxito com a sua narrativa no palácio do Xeque? Que desfecho iria ter aquela aventura da lenda esquecida? Aguardei, no dia seguinte, a volta do massagista. Ele, porém, não regressou.
Nunca mais o encontrei pela estrada de Bedi-Ezzman. Três ou quatro anos depois, ao percorrer o mercado de Basra, avistei o nosso bom Zend Rochaid. Reconheci-o logo apesar de seus trajes principescos. Trazia na cintura uma larga faixa de seda azul; ostentava um garboso turbante de três voltas com barras verdes!
Compreendi que ele fora, a partir daquela célebre aventura da lenda esquecida, generosamente recompensado pelo nobre Malik, ganhara, com certeza, riquíssimos presentes. Estava rico.
Tomado de viva curiosidade, interpelei-o:
- Por Allah, ó massagista! Vejo-te nadando em prosperidade! Louvado seja o Dono do Céu! Lembras-te ainda daquele nosso encontro em Bedi-Ezzman? O Xeque Malik e seus amigos aplaudi-
Respondeu Zend abraçando-me com alegria:
- Devo dizer-te, meu amigo, que não cheguei ao palácio do Xeque Malik! Ainda não me avistei, desde aquele dia, com esse nobre islamita! Há vários anos que não sei notícias dele.
- Como assim? Não partiste naquela tarde a correr, de minha tenda diretamente para a residência de Malik?
- A verdade ë a seguinte - tornou Zend. - Ao sair de tua tenda, depois daquele nosso celebre encontro, parti a correr pela estrada e vi-me envolvido numa aventura curiosa e inesperada. Essa aventura alterou os meus projetos, modificou o rumo de minha vida e deixou-me inteiramente desorientado.
- Que caso foi esse? - perguntei.
O massagista levou-me, com cativante gentileza para a sua bela vivenda junto ao rio, ofereceu-me deliciosos petiscos e, por fim, apontando para um divã coberto de almofadas, disse-me com docilidade:
- Senta-te, meu amigo! Senta-te ali e escuta a singular história que te vou contar.
E, olhando-me com sorridente agrado, narrou-me o seguinte:

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