1.10.2012

texugo do mel


Os Texugos do Mundo: nove espécies, um nome
A designação “texugo” é usada para denominar uma variedade de predadores da Família Mustelidae, que habitam quatro continentes: Ásia, Europa, América e África. No mundo existem nove espécies diferentes de texugos (oito pertencem à sub-família Melinae, que são considerados os “verdadeiros” texugos, e uma à sub-família Mellivorinae). Apesar da sua aparência ser por vezes muito diferente, estes carnívoros apresentam similaridades estruturais, comportamentais e ecológicas. Os texugos são mamíferos de tamanho médio, com um corpo entroncado, uma cabeça pequena e um pescoço reduzido e espesso. A cauda é em geral curta e o focinho é alongado. Numerosas espécies cavam uma elaborada rede de tocas, utilizando as patas da frente, que possuem garras não retrácteis relativamente bem desenvolvidas. Estas tocas, além de lhes fornecerem segurança, protegem-nos do frio durante os Invernos longos, especialmente aos que habitam zonas mais setentrionais. A maior parte das espécies são nocturnas e a sua visão é portanto relativamente fraca, sendo os olhos reduzidos e pouco visíveis. Pelo contrário, o olfacto está bem desenvolvido. Tal como em todos os mustelídeos, as glândulas anais são bem desenvolvidas e produzem secreções de odor intenso, que servem como veículo de comunicação olfactiva.
Meles meles
O registo fóssil indicia que este grupo de mustelídeos evoluiu a partir de ancestrais semelhantes a martas e fuinhas (Gén. Martes), que no Terciário (há 65 – 2 milhões de anos) diferenciaram-se, apresentando uma evolução na dentição em direcção à omnivoria (importância crescente dos dentes tuberculados atrás das mandíbulas e redução dos dentes carniceiros cortantes). No começo do Pleistocénico (a partir de 1,8 milhões de anos) a Europa assistiu ao aparecimento de texugos semelhantes às espécies actuais, vindos da Ásia, havendo numerosos restos fósseis de animais deste período (e.g. Meles thorali).

O continente que apresenta uma maior variedade de espécies deste grupo é a Ásia, onde existem sete espécies: texugo porco Asiático ou de cerdas (Arctonyx collaris), texugo fedorento de Palawan e Calamian (Suillotaxus marchei), texugo Malaio ou texugo fedorento da Indonésia (Mydaus javensis), três espécies diferentes de texugos furões (Género Melogale) e o texugo Eurasiático (Meles meles). Geograficamente isolado deste grupo de texugos que, de alguma forma, apresentam distribuições sobrepostas, temos o texugo Americano (Taxidea taxus). Todos estes texugos pertencem à sub-família Melinae. Há que referir ainda a existência de uma outra espécie pertencente a uma sub-família diferente, mas cujas características comportamentais e ecológicas a aproximam dos texugos atrás descritos - o ratel ou texugo do mel (Mellivora capensis). Este aparenta estar mais próximo evolutivamente dos Mustelinae (martas, fuinhas, etc.) do que dos Mellinae (texugos), embora seja suficientemente diferente de ambos para ser in cluído numa outra sub-família - Mellivorinae. Apesar das afinidades filogenéticas serem menores, as admiráveis semelhanças estruturais, comportamentais e ecológicas devem-se a uma evolução paralela, resultado de um modelo de vida semelhante.
Mellivora capensis
O texugo porco Asiático ou de cerdas (Arctonyx collaris) é um predador de médio porte (com cerca de 70 cm de comprimento e até 14 kg de peso), com uma vasta distribuição no Sudeste Asiático, podendo ser encontrado em zonas florestais do Norte da China e da Indochina, até à Tailândia e à ilha de Samatra (Indonésia). É um habitante típico de florestas tropicais, onde se alimenta, passando os dias refugiado em tocas profundas. Devido aos seus hábitos tímidos e nocturnos e à inacessibilidade das áreas onde está presente, pouco se conhece da ecologia e comportamento desta espécie. No entanto, sabe-se que é um mustelídeo verdadeiramente omnívoro, comendo principalmente raízes, minhocas e frutos, que encontra graças ao seu focinho móvel, em forma de tromba, característico desta espécie. Estes animais são ainda hoje apanhados em armadilhas para aproveitamento da sua pele, utilizada para fazer pincéis (de pintar e de barba) e tapetes.

O texugo fedorento de Palawan ou Calamian (Suillotaxus marchei) apenas pode ser encontrado em duas pequenas ilhas do grupo Calamian (Indonésia), a Norte e Este de Bornéu: Palawan e Busuanga. Este carnívoro é considerado um pequeno desconhecido (com cerca de 46 cm de comprimento e 3 kg de peso), pois tirando algumas descrições relativas à sua capacidade de, quando atacado, expelir um líquido de odor desagradável em direcção ao atacante (daí o seu nome de fedorento), pouco se sabe acerca desta espécie.
Suillotaxus marchei
O texugo Malaio ou texugo fedorento da Indonésia (Mydaus javensis) é um pequeno/médio mustelídeo (até 51 cm de comprimento e até 3,6 kg de peso), cuja área de distribuição está restrita a algumas ilhas da Indonésia: Java, Sumatra, Bornéu e Natuna. Habita somente áreas de montanha, sendo maioritariamente nocturno. Os seus hábitos escavadores permitem-lhe fazer tocas pouco profundas e muito simples, onde repousa durante o dia. Apesar de, tal como as restantes espécies descritas, ser cientificamente quase desconhecido, suspeita-se que se alimente de invertebrados (minhocas e insectos). Este animal tem os dedos das patas anteriores unidos mesmo até à base das garras, o que faz com que ao caminhar sobre os dedos (digitígrados) se bamboleie de maneira característica. O texugo Malaio é reconhecido pelos habitantes das áreas onde existe, pois possui uma glândula anal, cuja secreção rivaliza, em termos da intensidade do odor, com a da doninha-fedorenta. Esta excreção, para além de ser pestilenta, ap arenta ser nociva para os animais que atacam o texugo, havendo registos de cães que morreram asfixiados devido à sua acção, ou ficaram cegos, quando atingidos nos olhos. Tal como as secreções anais das civetas, estas são usadas, bastante diluídas, na elaboração de perfumes. Este mustelídeo é igualmente alvo de perseguição e caça por parte das populações indígenas sendo, por vezes, consumido por estas.

Os texugos furões pertencem todos ao género Melogale e habitam as zonas tropicais do Sudeste Asiático. O texugo furão indiano (Melogale personata) habita a Índia, Nepal e Birmânia; o texugo furão da China (M. moschata) vive numa área que vai desde a China ao Vietname do Norte; e o texugo furão de Everetti (M. everetti) restringe-se ao Bornéu e Java. São as espécies mais pequenas (33-43 cm de comprimento e raramente ultrapassando os 2 kg de peso) e as únicas verdadeiramente trepadoras. Estas espécies são consideradas as mais primitivas de todos os texugos existentes, tendo uma dentição ainda semelhante aos seus ancestrais (martas e fuinhas). Habitam florestas tropicais e subtropicais, áreas de pradaria e culturas, podendo viver, sem serem detectados, junto ao Homem. São descritos como omnívoros, alimentando-se de insectos, vermes, pequenas aves, ratazanas juvenis e frutos. São animais nocturnos que descansam durante o dia em abrigos subterrâneos (naturais ou construídos) ou em cima das árvores, f acto facilitado pelas suas capacidades trepadoras. Como todos os texugos, descritos até ao momento, quando atacados expelem um odor pungente da sua glândula anal.
Taxidea taxus
O texugo Euroasiático (Meles meles) é a espécie com a área de distribuição mais vasta, ocupando regiões asiáticas tão distintas como a Rússia e a costa Este da China e estendendo-se, através da Europa, até às ilhas britânicas e à zona mediterrânica (incluindo Portugal). Habita, deste modo, uma grande diversidade de habitats, sendo a espécie de texugo mais estudada, facto bem patente na vasta bibliografia científica disponível, especialmente oriunda do Reino Unido (abrangendo áreas tão distintas como a ecologia, a etologia, a parasitologia, etc.). Este interesse pelo conhecimento dos aspectos da biologia e ecologia deste carnívoro deve-se, em parte, ao facto de texugo Eurasiático constituir, no Reino Unido, um “reservatório” importante para a tuberculose bovina. Este facto, aliado ao enorme peso que a pecuária bovina tem na economia britânica, ampliou o interesse nos estudos científicos visando esta espécie. É um carnívoro social de médio porte (até 90 cm de comprimento e 16,7 kg de peso), h ábitos nocturnos e comportamento omnívoro, com uma alimentação muito variada (consome minhocas em Inglaterra e Norte da Europa, frutos e insectos na Europa mediterrânica, etc.). De dia estes animais refugiam-se em tocas mais ou menos profundas, que chegam a ter 80 entradas e que compartilham com outros membros do grupo (constituído por 3-35 animais). Todas as outras espécies vivem em tocas relativamente simples, quando comparadas com os elaborados complexos de tocas, por vezes centenários, do texugo Euroasiático. Pelo que se sabe, e em oposição aos outros texugos aqui descritos, a sua glândula sub-anal não tem nenhuma função defensiva, servindo apenas para marcação do território e dos recursos, e como veículo de comunicação olfactiva.

O texugo Americano (Taxidea taxus) ocupa uma vasta área da América do Norte: desde o Sudoeste do Canadá até ao México central, e da costa da Califórnia até ao Missouri e Illinois. Tal como o texugo eurasiático, esta espécie está presente numa grande variedade de habitats sendo, no entanto, mais comum em pradarias e florestas de folha caduca. Nas zonas mais a Norte pode entrar em semi-dormência durante os Invernos mais rigorosos, estando activa todo o ano quando as temperaturas não baixam demasiado. Os indivíduos desta espécie são, em geral, de dimensões semelhantes aos texugos eurasiáticos (42 a 72 cm de comprimento e 3,5 a 12 kg de peso), e maioritariamente nocturnos, repousando de dia em tocas escavadas por si. Há relatos de tocas escavadas no asfalto e em ruas, o que mostra como são poderosas as suas garras; contudo as suas tocas não chegam à complexidade das do texugo Euroasiático. Esta espécie é predominantemente carnívora, consumindo preferencialmente ratos e, como complemento, alimentos v egetais e insectos. Estes animais podem formar grupos de caça com coiotes isolados, mas não se sabe grande coisa desta cooperação. Usam as suas glândulas anais como mecanismo de defesa, através da produção de um odor desagradável. São capturados em grande escala por causa da sua pele, sendo retiradas cerca de 50 000 peles todos os anos nos EUA e Canadá.
Taxidea taxus
O ratel ou texugo do mel (Mellivora capensis) distribui-se por quase toda a África sub-sahariana, estendendo a sua área de distribuição através da Península Arábica até à Índia. São do tamanho do texugo Eurasiático (cerca de 70 cm de comprimento e até 12 kg de peso), apresentando hábitos maioritariamente nocturnos (apesar de poderem ser vistos de dia fora das tocas). O ratel alimenta-se de escorpiões, insectos, frutos, ovos, répteis, porcos-espinhos, e roedores. Alguns machos especializam-se na captura de grandes mamíferos, tais como lebres, raposas e juvenis de antílopes. Podem ainda rasgar a casca das árvores para chegar aos ninhos de abelhas (daí ser, por vezes, denominado texugo do mel), e desenterrar todo o tipo de comida, incluindo cadáveres humanos. O ratel pode associar-se à ave melífera para se alimentar: a ave com o seu chamamento característico conduz o ratel até um cortiço de abelhas; o ratel, por sua vez, parte o cortiço e partilha a sua refeição. A secreção da sua glândula anal tem duas funções distintas: a de marcação do território e a de anestésico contra as abelhas.

Em suma, tal como se pode constatar pelas descrições das espécies de texugos existentes no mundo, este grupo está presente na maioria dos continentes, abrangendo uma diversificada associação de habitats. Este facto parece estar relacionado, por um lado, com a capacidade de escavar refúgios e, por outro, à grande adaptabilidade trófica destes predadores, que lhes confere a capacidade de se alimentarem dos recursos disponíveis no meio, em determinada altura. Estes animais são capturados, atropelados ou envenenados pelo Homem em todo o mundo, mas mesmo assim têm sobrevivido surpreendentemente bem.
Arctonyx collaris




Autores do artigo : Miguel Rosalino e Filipa Loureiro
http://www.naturlink.pt
Data: 27/03/06





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