bruxas da luz: Quaresma Mula-sem-cabeça e lobisomem mitos e costumes

3.22.2011

Quaresma Mula-sem-cabeça e lobisomem mitos e costumes

User-agent: Mediapartners-Google* Disallow:

Mula-sem-cabeça e lobisomem estão entre os mitos e costumes já assustaram muitas crianças e adultos no período de preparação até a Páscoa
Irati - Várias lendas e crendices permeiam o imaginário popular no período da Quaresma, os quarenta dias desde a quarta-feira de cinzas até a quinta-feirada Semana Santa. Hoje, essas tradições folclóricas estão bem mais reduzidas, acabaram se perdendo com o tempo. Porém, para pessoas mais velhas, e em alguns lugares no interior, a Quaresma ainda é um período de recolhimento, oração, e de dormir cedo, principalmente na sexta-feira, pois, acredita-se que nesse dia a mula-sem-cabeça e o lobisomem estão soltos no mundo.
A dona de casa Etelvina Bendo, hoje com 65 anos, lembra que quando era jovem, as tradições da Semana Santa eram seguidas a risca na sua casa. “Minha mãe sempre contava que se passasse na Sexta-Feira Santa perto de um cemitério, você iria ver algum morto caminhando, além disso, durante toda sexta-feira da Quaresma não podia sair à noite que poderia ver o lobisomem. E dançar, só até a meia noite da quarta-feira de cinzas, se passasse disso, você poderia ver o demônio. A mãe dizia assim: pula, pula até meia noite, porque depois o diabinho aparece. E, se a mãe descobrisse que passamos da meia-noite no carnaval, era castigo em certa”.  Costumes como esse eram seguidos em muitos locais, e para quem não obedecesse o castigo vinha, se não fosse obra do acaso era dado em casa, pelos pais.
“Na Sexta-Feira Santa era proibido olhar no espelho porque viria outra imagem, algo horripilante, como a figura do próprio demônio. Também não se podia ouvir rádio, cantar, assobiar, ou, qualquer coisa que demonstrasse alegria”. Assim era a Quaresma, e principalmente a Semana Santa, na casa de Murilo Walter Teixeira, 74, que se recorda da infância, quando em sua casa, vários costumes e crendices eram respeitados durante esse período.
Muitas outras são as lendas da Quaresma, que variam de região para região. A seguir, algumas das mais comuns e dos costumes que eram respeitados no período.
A Mula-sem-cabeça – Reza a lenda que a mula-sem-cabeça é uma mulher que devora cadáveres nos cemitérios ou se alimenta de sangue humano. Nas noites de sexta-feira da Quaresma e durante toda a Semana Santa, a mula-sem-cabeça fica solta, correndo pelos campos e até dentro das cidades. E que ninguém veja a mula, pois, se ver e ficar olhando, fica maluco.
Outro que amedronta nesse período é o Lobisomem. Apesar de ser conhecido também em outras partes do mundo, o lobisomem brasileiro é um pouco diferente dos de outros lugares. No Brasil, o lobisomem é um homem pálido, de aspecto doentio e que por ser filho de incesto ou por ter nascido depois de uma série de sete filhas, é condenado pelo destino a virar lobo, cachorro, bezerro ou porco, em dias e horas determinadas (geralmente as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas da madrugada e principalmente na Semana Santa e Quaresma). Depois de transformado,  têm que fazer suas corridas: visitar sete cemitérios, sete colinas, sete encruzilhadas, sete igrejas, para voltar a ter forma humana.
A procissão dos mortos: Na noite de Sexta-Feira Santa, há uma crença que fala de uma espécie de procissão dos mortos. Segundo ela, os mortos saem dos cemitérios, todos vestidos de branco, saudando o aparecimento do Cristo entre eles, tal como aconteceu depois que Jesus morreu no Monte Calvário e que centenas de mortos ressuscitaram. Dizem que só vê a procissão dos mortos quem sai à noite de Sexta-Feira Santa para festar.
A Sexta-Feira da Paixão é a que mais é alvo da crendice e superstição popular.  Na Sexta-Feira Santa não se pode fazer nada, sob pena de castigo. “Se pregar alguma coisa nesse dia, seria o mesmo que estar pregando Cristo na cruz, dizem os mais antigos; um homem foi caçar nesse dia e acertou um veado pardo, quando se aproximou viu que matou seu próprio filho; outro que também foi caçar acertou uma capivara, cujo tiro acertou no meio do animal e uma parte do bicho continuou correndo para um lado e outra para outro lado; dançar no tempo da Quaresma cria rabo ou pés de cabra, igual às do demônio”, eram as histórias que o professor de história Ariel José Pires mais ouvia a respeito da Quaresma quando criança.
Outra tradição de muitos fiéis católicos era jejuar, com abstinência de carne em todas as quartas e sextas de Quaresma e na Semana Santa inteira. Hoje, esse costume caiu bastante em desuso e não é uma imposição da igreja.
Segundo outras tradições, nesse dia não se pode cortar a unha, se o ato for feito, dependendo da região do país, acredita-se que “faz unheiro”, ou “dá dor de dente”, ou “dá inflamação nos dedos”. Não se varre a casa, porque “faz mal”, ou porque “se varre os cabelos de Nosso Senhor”, ou, para não alvoroçar os bichos ruins; escorpiões, aranhas, etc. Também em tal dia, não se deve fazer a barba, nem pentear o cabelo. E “o café será tomado amargo, porque os judeus deram a Jesus fel amargurado”. Para muitas pessoas, trabalhar nesse dia então, nem pensar.
O dia da malvadeza: É na Quinta-feira Santa, quando começa a anoitecer. Bandos de foliões invadem currais, soltam o gado, enxotam as galinhas, estragam plantações. Fazem, enfim, qualquer tipo de malvadeza. Isso é praticado principalmente em fazendas.
Furtos da Sexta-Feira Santa: Em alguns lugares era costume roubar na noite de sexta-feira e dizia-se que não era pecado, porque o Senhor estava morto e não podia ver. O roubo, porém, nunca se efetivava para prejudicar alguém, roubavam frangos e depois levavam à casa do dono, no geral um conhecido, para que fossem preparados para o banquete de Aleluia. Os principais alvos dos roubos eram galinheiros.
Malhação do Judas: É uma tradição malhar o Judas no Sábado de Aleluia. E em muitas cidades do Brasil esse costume ainda é mantido. O motivo da malhação de um boneco que representa o Judas. É uma espécie de vingança do que ele fez para Jesus, é demonstração de revolta pela atitude do traidor.

Origem do folclore e a visão da igreja católica:
Esses costumes e as tradições da Quaresma são muito antigos, vem desde a Idade Média. Para o professor de História da Unicentro, Ariel José Pires, essas lendas foram sendo elaboradas pelos próprios membros da igreja católica. “A maioria são invencionices que foram se espalhando e chegando até os dias atuais, essas lendas são uma ferramenta importante de dominação e implementação de valores, para imposição, no imaginário popular, de crendices, mitos e lendas, utilizando-se do “desconhecido”, do “misterioso”, do “medo”, sobretudo no tempo da Quaresma”, conta. O professor Ariel dá alguns exemplos do que poderia ter originado algumas dessas crenças. “É costume que durante a Quaresma só se pode comer peixe e não outras carnes porque é tempo de sacrifício e jejum para purificar o corpo e a alma. Na verdade, no tempo em que isso foi inventado, era por uma questão sócio-econômica, de muitas sobras de peixe no mercado, e falta das outras carnes, complementa.
O significado da Quaresma para os cristãos e, principalmente, para a igreja católica, é a lembrança dos quarenta anos em que o povo de Deus vagou pelo deserto procurando a terra prometida. A Quaresma é a preparação que vai até a Páscoa. Durante esse período, os fiéis devem se aproximar de seu lado espiritual, é um período de reflexão. “A Quaresma é um longo período de penitencia, de oração, de interiorização, de preparação para a Páscoa. E o significado do Carnaval é um período de lazer antes de iniciar a rigorosa Quaresma. Aqui no Brasil, sabemos que o Carnaval é encenação e representação do teatro, da música, da dança e é lógico que nós como cristãos, sentimos quanto a humanidade se degradou no carnaval”, explica o Padre João Rocha, que foi professor da história das religiões durante anos.
A igreja não proíbe nada durante esse período, mas, faz recomendações para que se viva com sobriedade, não só durante a Quaresma, mas, o ano todo. Para o padre, essas crendices que giram em torno da Quaresma também são resultados de invencionices populares e até mesmo do fanatismo de alguns fiéis ao longo dos anos. “Podemos dizer que não havia em si proibições, havia orientações, mas o povo radicaliza às vezes. Não é não pode isso ou aquilo, é um período de sobriedade, de recolhimento. Existem um monte de crendices, mas isso não tem nada a ver com o cristianismo, são coisas que nasceram paralelas”. Mesmo sendo Crendices, fantasias ou lendas, o fato é que em tempo de Quaresma, muita gente se tranca cedo em casa.

Texto: Glarin Bif da Redação, com informações de http://www.jangadabrasil.com.br


Publicado na Edição 559, em 09 de março de 2011.

Seguidores

Follow by Email