9.26.2009

Lampião,Herói ou bandido?


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Expressões usadas para se referir ao cangaceiro
condensam idéias que estão na memória dos sertanejos


Lampião no imaginário popular

LUIZ SUGIMOTO

A professora Geralda de Oliveira Santos Lima, autora do estudo: mergulho na história para contextualizar o cangaço (Foto: Antoninho Perri)O rei do cangaço, o general do nordeste, o governador do sertão, o bandido ousado do sertão, o cangaceiro malvado, o famoso cangaceiro: processos referenciais na construção da memória social sobre Lampião. Este é o longo título da tese de doutorado de Geralda de Oliveira Santos Lima, apresentada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, sob orientação da professora Anna Christina Bentes da Silva.

Cangaceiro trabalhou imagem pública

O título seria mais extenso se a autora mantivesse o original, que incluía atributos depreciativos a Virgulino Ferreira da Silva, como “um bandoleiro vingativo”, “um homem perverso” e “um bandido muito cruel”. E poderia prosseguir com muitas referências a favor e contra: “a majestade do cangaço”, “o comandante cangaceiro”, “o estrategista”; ou “o cangaceiro sanguinário”, “o terror do nordeste”, “um bicho”.

“No meu trabalho, toda a análise se dá em torno destas expressões, que na lingüística classificamos como referenciais. São expressões que permeiam as narrativas das pessoas e possibilitam a reconstituição de acontecimentos passados. Toda a imagem de Lampião pôde ser construída a partir delas, visto que trazem grande quantidade de informações sobre o cangaço e seu maior personagem”, explica a autora.

“Tratam-se de expressões ‘encapsuladoras’, pois condensam idéias que estão na memória da população. Lampião tinha duas faces, atraindo olhares positivos e negativos. Para compreender e justificar por que ele era chamado, por exemplo, de ‘o governador do sertão’ sem nunca ter sido político, foi preciso mergulhar na história e contextualizar o cangaço”, complementa a professora Anna Bentes, que orientou a tese.

Lampião em três situações, em fotografias de B. Abrhão: segundo a pesquisadora, distribuição de produtos saqueados ajudou a construir a fama de “defensor dos pobres” (Foto: Reprodução)Professora de língua portuguesa na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Aracaju, Geralda Lima é natural do sertão sergipano. “Cresci ouvindo as histórias de Lampião, que muito me impressionavam e que o povo de lá nunca esquece. Em 2001, dentro de um projeto da universidade para qualificação de professores da rede estadual, surgiu a proposta de estudar o português falado na zona rural”.

Foram ouvidos então 36 moradores de Nossa Senhora da Glória, cidade que estava na trajetória de Lampião até a vizinha Poço Redondo, onde ele foi emboscado e morto junto com Maria Bonita, na Grota do Angico, em 28 de julho de 1938. Entre uma e outra investida por Lampião em três situações, em fotografias de B. Abrhão: segundo a pesquisadora, distribuição de produtos saqueados ajudou a construir a fama de “defensor dos pobres” (Foto: Reprodução)outras localidades do Nordeste, ele se escondeu por dez anos na região.

“Como o objetivo da pesquisa era verificar alguns aspectos na variação do português, os entrevistados tinham a liberdade de discorrer sobre o tema que quisessem. Chamou a atenção, na história de vida das pessoas, a referência constante a Lampião. Sua figura vinha à memória de quase todos, sem que eu sequer mencionasse seu nome”, recorda a autora.

O contexto – Geralda Lima lembra na tese que os cangaceiros surgiram devido a uma grande seca que flagelou o Nordeste na década de 1870, fomentando invasões e saques a vilas e fazendas. “Com base em historiadores como Eric Hobsbawn, compreendemos o fenômeno do banditismo como uma forma primitiva de protesto social organizado. Por isso, em muitas sociedades, os pobres percebem o bandido como seu defensor, idealizando-o e transformando-o num mito”.

O período sob o comando de Lampião, de 1922 a 1938, é considerado como “o ciclo mítico do cangaço nordestino”, em que as façanhas dos cangaceiros eram exaltadas nos versos dos cantadores de feira e na literatura de cordel. Virgulino possuía dom semelhante ao do cantador: antes da vida bandida, viajava com o pai pelo sertão, como almocreve (condutor de bestas), transportando cargas e notícias.

Segundo a pesquisadora, foi como almocreve que Virgulino conheceu as futuras estradas do cangaço e estabeleceu relações de conhecimento e amizade, construindo o cenário no qual viria a atuar como Lampião. Entrou ainda adolescente no bando do respeitado Sinhô Pereira, que ao decidir deixar o cangaço em 1922, não hesitou em nomeá-lo seu sucessor, quando este tinha apenas 25 anos.

Sinhô Pereira anteviu o mito, definindo o pupilo como o mais inteligente, o mais hábil e o mais esperto dos cangaceiros: “Já nasceu aprendido”. “Lampião criou fama de inteligente, astuto, corajoso, cauteloso, planejador, meticuloso, atributos que garantiram sua sobrevivência a um cerco de quase duas décadas”, afirma Geralda Lima.

A imagem – A professora Anna Bentes considera que Lampião soube trabalhar a sua imagem pública como ninguém. “As ações que promovia fizeram com que as pessoas se lembrassem dele de forma ambígua: ao mesmo tempo em que metia medo, era respeitado; ao mesmo tempo em que era bandido, era autoridade. E é justamente por isso que ele ficou na memória dessas pessoas”.

A distribuição em praça pública de produtos que saqueava das lojas, por exemplo, ajudaram a construir a fama de “defensor dos pobres”. “Homem de palavra” é uma das referências mais freqüentes nos depoimentos. “Certa vez, ele se apossou dos cavalos de uma fazenda para ir à Bahia, sem admitir questionamentos. Lá chegando, mandou devolvê-los, como prometera”, conta Geralda Lima.

“Ele provavelmente não devolvia todos os cavalos que tomava, mas o fez nesta ação – e foi a imagem que ficou”, arremata Anna Bentes.

Por outro lado, os olhares negativos mostram Lampião como um homem extremamente violento contra aquele que lhe negasse um pedido ou o contrariasse. “O bandido que invadia casas, fazendas, cidades; que se açoitava nos barrancos; que se escondia nas grotas, nas trevas para de lá espalhar destruição e morte”, escreve a autora.

Quanto à expressão “governador do sertão”, vem à memória da professora da UFS a maior guerra do cangaço, em 1926, no território pernambucano. Com 100 homens, Lampião venceu 300 nazarenos (força policial). “Depois da luta que durou o dia todo, ele enviou carta ao governador propondo a divisão de Pernambuco para pôr fim aos conflitos. Queria o sertão para ele, alegando que conhecia os problemas do ‘seu povo’”.


‘Código de honra’ forjou mito

A professora Geralda Lima constata, ao final do seu trabalho, que sobre a polêmica figura de Lampião prevalecem os olhares positivos, por conta principalmente de um código de honra sempre respeitado pelo cangaceiro. “Apesar de todas as maldades que ele praticou, permanece viva na memória social dessas comunidades a figura do guerreiro, estrategista, inteligente, leal e honesto”.

A autora analisou as expressões referenciais utilizadas em obras de especialistas (historiadores, sociólogos, jornalistas, memoralistas), também verificando uma maioria vinculada a um ponto de vista positivo sobre Lampião. “Isso mostra a força do universo referencial socialmente construído que se formou, ao longo do tempo, ao redor da figura do cangaceiro”.

Na opinião da pesquisadora, o mito tende a se perpetuar, em função do interesse de jovens e crianças que testemunhou. Ela explica que as pessoas do interior do Nordeste estão mais afeitas à oralidade e que histórias são contadas e recontadas de geração em geração. “Especificamente na região do sertão do baixo São Francisco, as pessoas vêm mantendo viva a chama da memória desse personagem mítico do sertão nordestino”.

Geralda Lima conta que um entrevistado de 32 anos mantém em sua casa um ambiente apenas com objetos sobre Lampião – fotos, imagens e outros objetos que já encantam o filho de 5 anos – e lidera um grupo de xaxado com temática voltada ao cangaceiro. “Ele criou a praça Lampião em Nossa Senhora da Glória, que foi derrubada pela prefeitura e depois remontada e mantida por professores e alunos”.

Assim como este incidente na praça, que mostra como o conflito de olhares permanece vivo até hoje, a professora Anna Bentes lembra a disputa em torno da instalação de monumentos em homenagem ao cangaceiro em vários lugares do Nordeste. “É o mesmo embate entre prós e contras: Lampião era apenas um bandido ou a síntese do homem nordestino?”.

A tese de Geralda Lima traz uma contextualização do cangaço, reflexões de especialistas sobre este fenômeno e a memória social, um capítulo tratando das expressões referenciais, além de 15 entrevistas transcritas. “Estudos nessa área da lingüística são bastante técnicos. Mas o caráter memorialista deste trabalho permite uma leitura agradável. Não se trata de um trabalho banal e por isso merece ser publicado”, avalia Anna Bentes.

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