6.20.2009

mutações em angra I

> Erro Abafado


Angra 1 vazou em silêncio, a população e a imprensa não souberam de nada. Às 23 horas de 28 de maio, quatro operadores entraram na sala de controle de Angra 1, usina nuclear que garante energia a 1,8 milhão de habitantes do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Iniciavam o turno da madrugada. No ambiente asséptico, acomodaram-se diante dos monitores dos computadores. A descontração do início da jornada de oito horas de trabalho cessou rapidamente. Uma das telas alertava: a água que refrigera o reator apresentava excesso de pressão. Foram minutos tensos. Vasculharam-se falhas, mas não se conseguiu detectar a origem do problema. O sistema automático de segurança entrou em ação e parte da água superaquecida vazou para o tanque de alívio. A temperatura baixou um pouco.

Os técnicos, contudo, não comemoraram. Era preciso localizar e corrigir o defeito. Nervosos, movimentaram controles, reviram as operações, esquadrinharam condutores – e nada. Enquanto isso, o segundo sistema automático de segurança entrou em funcionamento para evitar o estouro do tanque ao receber líquido em demasia. Um total de 22 mil litros de água radioativa, equivalente ao volume de uma piscina infantil, foi despejado na parte interna do vaso de contenção de Angra 1 – edifício de concreto em forma de uma lata gigante de refrigerante onde fica o reator. Nunca na história de 16 anos das centrais nucleares brasileiras ocorrera vazamento dessa proporção.

O defeito original acabou descoberto logo depois. O grupo de operadores do turno anterior esquecera de fechar a válvula de controle da pressão da água. Foi a primeira falha. Os recém-chegados demoraram a localizar a deficiência. Foi a segunda. A série de erros humanos só não teve conseqüências mais drásticas porque a água radioativa ficou contida no tanque do vaso de contenção. Não se espalhou. O vazamento não foi divulgado, mas está registrado em documentos arquivados na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Orçada em US$ 308 milhões, Angra 1 custou US$ 2 bilhões. A produtividade não era o ponto forte da usina fornecida pela americana Westinghouse. Logo depois de inaugurada, com sete anos de atraso, ganhou o apelido de vaga-lume, por sempre acender e apagar. De propriedade da estatal Eletronuclear, Angra 1 opera com um sistema de segurança eficiente. Nos três últimos anos, contudo, emite sinais de alerta. Em 1998 e 1999, houve 11 paradas de operação não programadas – quatro delas por excesso de tensão na rede elétrica de transmissão, sem responsabilidade da central. As outras foram motivadas por falhas humanas e de equipamentos, parte deles adquirida há mais de 20 anos. Em 2000, registraram-se quatro interrupções de funcionamento. Neste ano, uma.


Texto parcialmente retirado da Revista Época 1

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